
O que mais me dói
É ter ainda que envolver de sudários
Os momentos,
Nossos corpos frágeis
E transitórios,
Devorados pela urgência,
Vencidos pelo real
Na veemência do tempo.
A nossa madrugada se esvaiu
Como areia entre os dedos,
E a lua que eu te dei,
Do tom mais sutil,
A prata em cascatas de luar,
E o pranto da aurora boreal,
Consumiram-se
Na boca canibal do Deus do tempo.
E o vento
Rosna em seu lamento
Maledicências,
Nostálgicas dores,
Se misturam numa sinfonia
De estranhas vozes.
As cores são
De plúmbeos tons,
Cripta e granizo,
E os astros dispersos
Num infindável aviso,
Que dor maior há de vir.
Perscruto o céu,
Decifrando os véus
De bruma,
No breu.
E nem preciso ver
Depois o sol,
Flor de gelo.
E a lua,
Essa estranha criatura,
Nesta noite,
É apenas
Uma escultura
De papel maché.
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